Nataly Domicó (Consultora De CS)
Povo Ogiek é uma das comunidades mais antigas e resilientes do Quênia. Historicamente, eles habitavam o Complexo Florestal de Mau (a maior floresta da África Oriental) que constitui não apenas seu território ancestral, mas também uma fonte essencial de sustento e espiritualidade. No entanto, nas últimas décadas, os Ogiek têm enfrentado inúmeros desafios que ameaçam tanto seu território quanto seu modo de vida tradicional. A perda sistemática de suas terras ancestrais e a negação do direito à autodeterminação enfraqueceram profundamente suas práticas culturais, sociais e espirituais. Essa situação colocou em risco a transmissão intergeracional de conhecimentos, especialmente aqueles relacionados à conservação ambiental e à soberania alimentar.
Nos últimos anos, a situação do Povo Ogiek começou a receber atenção internacional. Um marco importante foi a decisão histórica do Tribunal Africano de Direitos Humanos e dos Povos, que declarou ilegais os despejos do Povo Ogiek da Floresta de Mau. Essa decisão reconheceu o papel fundamental que os Povos Indígenas desempeham como guardiões dos ecossistemas locais e reafirma a necessidade de respeitar seus direitos territoriais e culturais.
Apesar de muitos obstáculos, os Ogiek têm desenvolvido estratégias comunitárias para enfrentar essas adversidades, com foco especial na revitalização de sua autonomia e de suas práticas culturais. As mulheres Ogiek têm desempenhado um papel central e transformador nesse processo, liderando ações voltadas à proteção e à transmissão de conhecimentos ancestrais relacionados à alimentação, à terra e à biodiversidade.
Um exemplo desses esforços é o projeto “Seeds of Change: Enhancing Climate Resilience and Adaptation for the Ogiek Indigenous Peoples” (“Sementes da Mudança: Fortalecendo a Resiliência Climática e a Adaptação do Povo Indígena Ogiek”), uma iniciativa da Kabiak Ogiek Women and Youth Network (KOWYN), com apoio do programa Guardiões da Terra da Cultural Survival. Esse projeto concentrou uma abordagem profundamente enraizada na comunidade, combinando conhecimentos tradicionais Indígenas com soluções práticas e sustentáveis adaptadas ao contexto local.
Como parte dessa iniciativa, a KOWYN realizou atividades significativas nas escolas primárias de Segton e Sabatia, onde foram plantadas mais de 500 árvores frutíferas. Essas árvores, além de simbolizarem resiliência e esperança, transformaram os terrenos escolares vazios em futuras florestas alimentares. Sua produção contribuirá para programas de alimentação escolar e servirá como ferramenta de ensino para promover a educação ambiental entre crianças e jovens. O trabalho também fortaleceu junto a diversos grupos de mulheres Ogiek (incluindo Poror, Kwomberi, Tabut e Tachasi) que participaram ativamente na criação de hortas familiares com sistemas de compostagem, melhorando significativamente a nutrição, a segurança alimentar e a autossuficiência das famílias.

“Sempre soubemos como cultivar nosso próprio alimento, mas estávamos perdendo esse conhecimento. Agora, com o banco de sementes e os treinamentos, sinto que estamos recuperando o que é nosso. Eu planto sabendo que essas sementes são nossas para proteger”, afirma Rebeca Chel-angat, integrante do grupo de mulheres Tachasis.
Os treinamentos oferecidos no âmbito do projeto KOWYN forneceram ferramentas práticas sobre agricultura orgânica, compostagem, consorciação de culturas e conservação de sementes tradicionais. Isso levou à criação de quatro hortas demonstrativas e à produção de mais de 100 mudas, que posteriormente foram plantadas em casas Ogiek. Além disso, iniciou-se um processo sistemático de documentação das sementes Indígenas locais, visando estabelecer um banco comunitário de sementes. Essas ações fortaleceram a segurança alimentar e a saúde das famílias, ao mesmo tempo, em que revitalizam sistemas de conhecimento ancestral, aumentam a resiliência climática e empoderam as mulheres como guardiãs da cultura alimentar e da biodiversidade do povo Ogiek.
As sementes nativas representam o patrimônio genético e alimentar dos Povos Indígenas. No entanto, uma das estratégias coloniais, que persiste até hoje no modelo agrícola industrial, tem sido justamente enfraquecer esse patrimônio, incentivando o desmatamento, promovendo monoculturas, contaminando os solos com agrotóxicos e substituindo dietas tradicionais por alimentos ultraprocessados, afetando gravemente a saúde e a autonomia das comunidades.

Na Cultural Survival, apoiamos fortemente iniciativas que promovem a recuperação de alimentos nativos e naturais, em processos de autodeterminação, autonomia territorial e revitalização cultural. Como destacado em uma edição de 2024 da revista Semillas: “As sementes nativas são a base da soberania dos povos e da autonomia territorial e alimentar. Recuperá-las e protegê-las é preservar o conhecimento ancestral, as identidades culturais e os meios de subsistência das comunidades.”
O projeto KOWYN reafirma a importância de abordagens comunitárias centradas nos conhecimentos e valores Indígenas. Sua implementação promoveu a participação ativa de anciãos, mulheres, jovens e crianças Ogiek, fortalecendo o sentimento de pertencimento, a memória coletiva e o orgulho cultural. Por meio de ações como a conservação de sementes, a agricultura comunitária e o manejo ambiental sustentável, o povo Ogiek demonstra que é possível resistir, curar e reconstruir o tecido comunitário a partir de suas próprias raízes.

A valiosa experiência do projeto KOWYN nos lembra que sustentabilidade e resiliência climática não se constroem somente com tecnologias modernas, mas com o reconhecimento e o fortalecimento dos saberes ancestrais que cuidam da terra há gerações. O trabalho que realizam para recuperar suas sementes, seus alimentos e sua autonomia não é apenas uma força local, é também um lição sobre a importância de valorizar a diversidade cultural, proteger a biodiversidade e defender o direito dos povos de decidir sobre seus territórios e suas vidas.
Em um mundo marcado pelas mudanças climáticas, pela crise alimentar e pela perda de identidade, o processo conduzido pelas mulheres Ogiek nos convida a refletir sobre a forma como habitamos o planeta, e a compreender que, nas sementes nativas que elas recuperaram e guardaram, germinaram também a esperança e a possibilidade de construir um futuro mais justo, que respeita os direitos dos Povos Indígenas e sua autodeterminação.
Em 2024, a Koibatek Ogiek Women and Youth Network recebeu um subsídio do Fundo Guardiões da Terra (KOEF) para apoiar seu trabalho. O KOEF é um fundo liderado por Indígenas dentro da Cultural Survival, criado para apoiar projetos de defesa e desenvolvimento comunitário de Povos Indígenas. Desde 2017, o KOEF apoiou 440 projetos em 42 países, totalizando US$ 2.667.147 em pequenos subsídios e apoio técnico complementar.
O Fundo Guardiões da Terra (KOEF) concede doações de até US$ 12.000, destinadas diretamente a comunidades, coletivos, organizações e governos Indígenas tradicionais, para apoiar projetos de desenvolvimento autônomo baseados em valores Indígenas. Fundamentado na Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, o programa da Cultural Survival adota uma abordagem baseada em direitos, promovendo soluções Indígenas de base por meio da distribuição equitativa de recursos às comunidades. www.cs.org/koef
Todas as fotos por Koibatek Ogiek Women and Youth Network.
Foto superior: Atividades realizadas pelo projeto “Seeds of Change”, apoiado pelo KOEF.